jusbrasil.com.br
15 de Maio de 2021

A peça teatral que foi censurada

Ainda somos os mesmos?

Talita Medeiros, Estudante
Publicado por Talita Medeiros
há 3 anos

A polêmica acerca da exibição ou não do espetáculo "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" é intensa e não aparenta possuir solução fácil de apaziguamento. De um lado, os cristãos que se sentiram ofendidos com a peça como expressão de escárnio a figura de Jesus e, do outro lado, os defensores dos movimentos artísticos (independente dos movimentos LGBT's envolvidos) que admitem a livre expressão como base para a legítima exposição desta peça e de outras formas de expressão artística.

Decerto que os comportamentos, símbolos e ideias pertencentes às religiões são temas sensíveis de serem retratados, pois, mesmo que sejam frutos do universo simbólico e ideológico fundados em pura crença, dramatizar personificando divindade emprestada do cristianismo (ou outra religião) geram a comoção e a reação defensiva dos mais (e até dos menos) fiéis.

Dito isso, é consenso a aceitável reação contrária a esta peça pelos fiéis, uma vez que suas ideologias cristãs estão sendo contrariadas. É admissível sentir-se desrespeitado, e até aí tudo bem, afinal há liberdade garantida de expressão do dissabor sobre algo, além de se ter a liberdade de não ser telespectador daquilo que não se gosta ou concorda.

Entretanto, utilizar isso como argumento para impedir a exibição de uma peça é claramente instrumento de censura, que, diga-se de passagem, é típico do período inquisitorial, quando as Igrejas Católicas detinham real poder de influência no Estado, contrariando mortalmente o princípio constitucional da liberdade de expressão (art. , IX, da CRFB), princípio este essencial para a concretização de um país que se intitula como um Estado Democrático de Direito.

Sem dúvida, a dramaturgia é o palco de expressão das mais variadas polêmicas, muitas ao longo da história foram impedidas de serem reproduzidas. Proibições de publicação de livros, artigos, jornais, peças, músicas existiram em nossa história de modo legítimo, até pouco tempo. Pessoas foram queimadas, torturadas, mutiladas, silenciadas, exiladas e por aí vai.

Porém, hoje, quando, enfim, havia se tornado peça de museu, ou melhor dizendo, capítulo de livro de história, tal repressão reapareceu viva, no Estado brasileiro, hasteando a bandeira da moralidade, e, com isso, desmoralizando a Constituição e a garantia de falar artisticamente, fictamente, questões sociais complexas que contrariam, mas que PRECISAM SER DITAS, seja lá que recurso simbólico se utilize para tanto.

0 Comentários

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)